segunda-feira , 11 dezembro 2017
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Madonna acelera o lançamento oficial de ‘Rebel heart’

20150309092642540008eA queda que interrompeu a performance de Madonna no encerramento dos Brit Awards, no mês passado, representa o caos ordenado em que a rainha do pop escolheu se envolver para a criação de ‘Rebel heart’, álbum que chega ao Brasil nesta semana. Derrubada com o puxão de uma capa amarrada ao pescoço, a cantora levantou-se e seguiu a interpretação de ‘Living for love’, carro-chefe do disco, sem demonstrar abalo após o acidente, que lhe causou uma entorse cervical.

“Se eu não estivesse em boa forma, não teria sobrevivido àquela queda. Mas sou forte”, disse ao The New York Times. A agilidade com que retomou seu número é a mesma que demonstrou ao rebater o vazamento de 13 gravações de ‘Rebel heart’ ainda em estágio inicial, no fim de 2014. Ela antecipou o lançamento de seis faixas já finalizadas, entrando no jogo ditado pela velocidade da internet.

A degustação já dava ideia de um trabalho bem mais interessante que os dois anteriores (‘Hardy candy’ e ‘MDNA’). O álbum completo (25 faixas) revela uma artista ainda mais ágil em captar tendências, munida de produtores que conduziram sua música a caminhos mais frescos do que os explorados na última década.

Kanye West, Avicii e Diplo são os principais guias musicais de ‘Rebel heart’ — daí sua sonoridade desordenada, por vezes confusa. Mas é a força da qual Madonna se gaba que transparece como combustível e condutor do novo trabalho. Nas canções, vantagens físicas dão lugar à marca forte do status conquistado ao longo dos mais de 30 anos de carreira.

Ainda que sua voz limitada não tenha ganhado muito desde o treinamento que a aperfeiçoou para ‘Evita’ (1996), é na arriscada combinação de colaboradores tão divergentes que a artista prova sua coragem. Se não fosse um álbum embalado em sua personalidade, a combinação não soaria uniforme. O experimentalismo que consagrou o time de parceiros também confere fôlego aos momentos mais espontâneos do CD, como quando ‘Unapologetic bitch’ funde reggae com EDM. Sob esse aspecto, Rebel heart realça a luta de Madonna contra quem menospreza a relevância de sua produção atual, especialmente por conta de seus 56 anos.

“Mulheres, em geral, quando chegam a uma certa idade, aceitam que não devem se comportar de uma certa maneira. Mas não sigo regras. Nunca o fiz e não vou começar agora”, disse à Rolling Stone. Autoafirmativa, ‘Bitch I’m Madonna’ é tão bem-humorada quanto qualquer outro trap assinado por Diplo e cresce com a inserção de Nicki Minaj, ao contrário das aparições no disco anterior.

Já a colaboração dispensável de Chance the Rapper em ‘Iconic’ não diminui a clássica mensagem de que o estrelato está ao alcance de todos, tampouco reduz o inusitado da introdução de Mike Tyson para a faixa. ‘Illuminati’ traduz o humor afiado da cantora em uma crítica às teorias da conspiração, mas também simboliza sua primeira aproximação bem-sucedida com o hip-hop, graças ao trabalho de Kanye. ‘Hold tight, Inside out’ e a excêntrica ‘Body shop’, de inspirações orientais, respondem pelo vanguardismo das produções, enquanto ‘S.E.X.’ e ‘Best night’ mantêm viva a persona sensual de ‘Erotica’ (1992).

ASSINATURA ‘Devil pray’ é exemplo de canção que só parece funcionar sob a assinatura de Madonna, com sua mistura de referências religiosas e menções ao uso de drogas. A produção de Avicii é dobrada à vontade da intérprete, revivendo a mescla de violões e batidas eletrônicas que surpreendeu fãs e críticos à época de ‘Music’ (2000). A autorreferência é um dos elementos básicos de ‘Rebel heart’, mas surge de modo mais fluido que nos discos anteriores. Quando a cantora acena para o passado e cita alguns de seus hits em ‘Veni vedi vici’, tem o cuidado de unir as recordações com versos confessionais do rapper Nas, para se redimir da autocelebração.

Em ‘Holy water’, chega a usar um trecho de Vogue, mas o sucesso de 1990 serve apenas como elemento de afirmação em sua ode ao sexo oral. Outros reflexos de trabalhos antigos são mais sutis, com destaque para a constante união profana de erotismo e religião.

‘Living for love’ une os requisitos para uma canção ideal na discografia de Madonna: tem batidas house, menção a Deus, trata de superação pós-decepção amorosa e, para deleite dos fãs de ‘Like a prayer’, traz de volta um coral gospel. Ao assumir elementos que a consagraram entre outras gerações, a popstar soa mais contemporânea do que nos flertes com as tendências datadas de seus dois álbuns anteriores.

As letras não eram tão intimistas desde ‘American life’ (2003), o que garante baladas honestas após longo período de produções superficiais. Entre estas, ‘Wash all over me’ brilha pela percussão exótica e por versos maduros. ‘Messiah’ e ‘Joan of Arc’ jogam com a alternância de dramas pessoais e referências religiosas. ‘Heartbreakcity’ e ‘Ghosttown’ são ainda mais cruas e se abrem com juras de amor em meio a lamentos. Mas fica com ‘Queen’ o mérito de um discurso franco de Madonna sobre a própria carreira, que levanta a questão: “Quem vai substituí-la?”.


DIVA ATEMPORAL
Confira momentos da carreira de Madonna que entraram para a história

JUSTIFY MY LOVE
Em 1990, as curvas sem remorso de Madonna e o jogo erótico proposto por ela no clipe de ‘Justify my love’ levaram a escritora Camille Paglia a classificá-la como “o futuro do feminismo”. A MTV baniu o vídeo, por conteúdo sexual explícito. Paglia elogiou Madonna por expor “o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano, que segue estacionado em um choramingo adolescente”. As imagens que acompanhavam os vocais sussurrados de Madonna (em sua primeira incursão pelo trip-hop) mostravam-na seminua, simulando sexo com um homem e uma mulher que trocavam de lugar a cada tomada. Com direção de Jean-Baptiste Mondino, fazia referências a voyeurismo, homossexualidade e sadomasoquismo. Parte da crítica previu o declínio de Madonna. Lançado em VHS para rebater a censura das emissoras de TV, ‘Justify my love’ ultrapassou o primeiro milhão de cópias no mesmo ano e tornou-se o single em vídeo mais vendido de todos os tempos.

LIKE A VIRGIN
A MTV contava apenas três anos quando decidiu lançar a própria premiação musical, nos anos 1980. Para o primeiro VMA, a emissora não conseguiu escalar nomes de alto escalão e abriu espaço para uma novata. Vestida de noiva, Madonna emergiu de um bolo de casamento para a performance de ‘Like a virgin’. O sapato da cantora saiu do pé, e ela precisou se abaixar para resgatá-lo. Com seu senso de oportunidade, rolou no chão. O vestido levantou, e a calcinha ficou à mostra. A cena se tornou icônica e impulsionou a carreira de ‘Like a virgin’. Em 2003, ela abalou novamente o planeta pop, reeditando aquela performance de estreia no mesmo palco do MTV Awards. Uniu Britney Spears e Christina Aguilera. Madonna assumia o papel de futuro marido para as noivas (as duas jovens cantoras). O trecho de ‘Like a virgin’ em dueto, a entrada de Madonna com marcha nupcial e os beijos em Spears e Aguilera entraram para a história do pop.

 

ATIVISMO NO PALCO
Em sua turnê mais recente, que passou pelo Brasil em dezembro de 2012, Madonna abriu espaço para as russas da Pussy Riot, levadas à prisão por Vladimir Putin. Um mês depois, destacou a paquistanesa Malala Yousafzai, “a menina de 14 anos que levou um tiro em um ônibus escolar por escrever um blog sobre a importância da educação”, resumiu Madonna, ao se referir ao nome estampado em suas costas. “Apoiem a educação! Apoiem as pessoas que dão apoio às mulheres”, convocou a cantora. Ambos os discursos aumentaram a visibilidade das militantes entre o público que consome música pop e para além dele. Em fevereiro de 2014, foi Madonna quem introduziu a Pussy Riot no palco do concerto dedicado à banda pela Anistia Internacional, declarando-se uma lutadora a favor da liberdade, “desde quando entendi que tinha voz e podia cantar sobre canções que iam além de ser uma garota material ou me sentir como uma virgem”. No mesmo ano, Malala recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

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